domingo, 25 de abril de 2010

Chã Grande é assim

Amigos queridos, papo interessante, risada gostosa, horta orgânica, vinho, terra, fogo, água e ar puro.
Esse painel de azulejos acima da pia do gazebo foi pintado, nos anos 70, por Dona Célia mãe de Celina. Presente para a sua casa da Barra no Rio de Janeiro. Celina negociou a casa que foi demolida por uma construtora. Não sem antes retirar, com todo cuidado, um por um dos azulejos do painel agora montado para nosso deleite!




quarta-feira, 21 de abril de 2010

Uma tarde em 76


O ano era 1976.

Na vitrola (na verdade já era uma pick up sansui que meu pai trouxe da zona franca de manaus) tocava Johnny Mathis - Misty.

Minha mãe tinha todos os long plays dele. Além de Românticos de Cuba. Os do meu pai eram de Nelson Gonçalves. Não posso ouvir nada disso sem me lembrar imediatamente dos meus pais.

Meus pais bebendo e fumando com os amigos e jogando "buraco". Duro. Sem coringa. Sem canastra suja. Só limpa. Canastra real. Uma delas valia 200 pontos. De As à As valia 500.
Voltando para 1976. Eu tinha um amor proibido. Minha mãe adorava o cara.
Porque pensava que era só amigo. Ele era mais velho ( 8 anos mais velho do que eu, não tinha estudado, era artista, negro e tinha uma noiva! Caramba, isso é que era um amor proibido naquela época!) e tocava violão muito bem, tocava pra minha mãe. Ele vinha das noitadas direto lá pra casa tomar café da manhã e minha mãe achava isso o máximo. Meu pai dizia "Helga abre o olho, não existe amizade entre homem e mulher". E a gente se beijava escondido. E a cena que ficou, a cena que eu fecho os olhos e enxergo quando toca Misty é a seguinte:


Final de tarde, sala do apartamento de Boa Viagem, Johnny Mathis na vitrola - Misty.

Minha mãe fumando e bebendo com sua calça cigarrete, unhas vermelhas compridas e os cabelos muito altos de laquê. Meu amigo me tira para dançar. Dançamos toda a música e é como se o mundo acabasse ali, é como se aquela música tivesse durado toda uma eternidade. E durou. Durou até hoje.

Inútil rasgar fotografias: ninguém pode apagar as fotos e os filmes da nossa cabeça. Mas essa frase é de um outro amigo meu. ...E a trilha sonora era Tribalistas.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Dona Doida







Nunca consegui falar sobre minha mãe aqui nesse blog. Posts e posts sobre Raul, nada de Helga. Não é só aqui. Trata-se de um bloqueio.

Agora faz um ano que ela morreu (na verdade um pouco mais) e sua presença é para mim mais concreta do que quando ela estava viva se bulindo.

Fiz 5 anos de psicanálise e até hoje não tenho certeza se minha mãe era uma mulher muito à frente de seu tempo ou se ela era doida mesmo.

No primeiro caso ela estaria mais para Leila Diniz do que para Simone de Beauvoir.

Mas ela tinha plena convicção de que as mulheres tinham exatamente, rigorosamente os mesmos direitos que os homens, contanto que não precisassem trabalhar.

Não que ela fosse inculta ou iletrada. Devorava livros, cursou universidade federal.

Bebia e fumava desde os 15 anos. Fazia penteados altos de laquê duas vezes por semana e era capaz de dormir sentada para não desmanchá-los. Fumava com suas longas unhas vermelhas que nos causavam pavor por causa dos beliscões.

Mordaz, sua ironia corrosiva destruía auto-estimas por onde passava, mas foi responsável pela sua solidão.

Um dia, para meu espanto, ela me disse que a sensação de morrer devia ser deliciosa igual a de um orgasmo. Fiquei estarrecida. Ela, que nasceu em 1936, não apenas conhecia a sensação do orgasmo como tinha tanta intimidade com eles que considerava o assunto trivial.

Helga aprendeu a dirigir em uma Rural 1964. Meu pai não foi seu primeiro namorado e ela não casou virgem.

Filha de um alemão de Dusseldorf com uma gaúcha de Porto Alegre, sempre foi uma mulher cosmopolita. Tinha mania de levar os filhos a psicólogos e dentistas. Ninguém fazia isso, principalmente em Piracicaba, interior de São Paulo, para onde, horrorizada, se mudou por causa do trabalho de meu pai. Aos 3 anos eu frequentava regularmente o dentista. Em 1970 levou minha irmã ao psicólogo porque ela se recusou a ir com amigos ao cinema. Considerou depressiva aquela atitude. Quanto à mim fiz , minha primeira consulta ao psicólogo aos 12, 1974, plena ditadura militar. O motivo? rebeldia. Respostas que eu tinha na ponta da língua.

Mulher de difícil convivência, um a um fomos saindo de casa.

O primeiro foi meu pai, eu tinha 15 anos e eles 23 anos de casados.

Helga mudou pra pior. Além disso, aos 42 anos, além de desquitada, arrumou um namorado de 22 anos. Minha irmã tinha 24. Minha irmã foi embora de casa. Eu virei a bola da vez. Então fui morar com meu pai.

A minha relação com dona Helga foi sempre tão difícil e dolorosa, tema de intermináveis sessões de terapia, enfim. E foi na terapia que, aos 40 anos, descobri que meu pai tinha defeitos! Isso foi uma revelação. Eu não via defeitos em meu pai. Também descobri qualidades em minha mãe!

E hoje, depois que ela morreu, (quer ser bom? morra.) hoje vejo outras qualidades nela, e vejo o quanto somos parecidas, fato que sempre me horrorizou admitir. E que agora entendo tudo e até sinto orgulho. Helga. Só agora, meio século depois consegui te compreender. Acho que eu te amaria.

domingo, 18 de abril de 2010

O QUE ANDO LENDO?


HISTÓRIA SOCIAL DO JAZZ - ERIC HOBSBAWN - amantes do jazz, historiadores ou aspirantes à ambos irão gostar.
LEITE DERRAMADO - CHICO BUARQUE - qualquer pessoa que goste minimamente de ler vai gostar. Leitura fácil, fluente rápida, gostosa.

domingo, 11 de abril de 2010

Augusto dos Anjos


Vandalismo


Meu coração tem catedrais imensas,

Templos de priscas e longínquas datas,

Onde um nume de amor, em serenatas,

Canta a aleluia virginal das crenças.


Na ogiva fúlgida e nas colunatas

Vertem lustrais irradiações intensas

Cintilações de lâmpadas suspensas

E as ametistas e os florões e as pratas.


Como os velhos Templários medievais

Entrei um dia nessas catedrais

E nesses templos claros e risonhos ...


E erguendo os gládios e brandindo as hastas,

No desespero dos iconoclastas

Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

sábado, 10 de abril de 2010

Cinema da Fundação - Maratona

Colin Firth e Juliane Morre em A single Man

Sábado adorável. Fui sozinha e teria sido a primeira vez na minha vida que eu iria ao cinema sozinha. Já estava orgulhosa de mim mesma. Olhei a programação, tomei banho, me troquei: prontíssima às 15. Sempre desisto nessa hora. A caminho do elevador tive a idéia de ligar para uma amiga que poderia estar de bobeira e mora perto da Fundarj. Ela disse que ia. Não fiz fé. Nessa hora eu já ia de todo jeito. Coloquei na bolsa meu xale quentinho de Machu Picchu.

16:40 - Sentada no meu lugar predileto aguardando:

O Processo de Joana D'Arc de Robert Bresson - 1962 - França - 65 minutos - preto e branco. Sessão grátis na Fundação.

Baseado inteiramente em fontes históricas primárias, ou seja, nos arquivos do processo, o filme mostra todos os passos do martírio da heroína francesa, do encarceramento à fogueira. Como historiadora me deliciei, mas minha amiga - que para minha surpresa apareceu - achou detalhista meio maçante. Discordo. O filme é fantastic.
Saímos para tomar um delicioso café Castigliani enquanto aguardávamos

18:30 - A Single Man - Tom Ford EUA 2009 (Direito de amar, horrendo nome que ganhou na tradução brasileira).
O professor universitário de literatura - brilhante atuação impecável de Colin Firth - perde inesperadamente o seu companheiro após 16 anos de convivência. O filme narra a dor e a extrema solidão do protagonista ao enfrentar o dia a dia, agora sem sentido, e recordando os instantes de felicidade vividos com seu grande amor. A dor é dilacerante. O ponto forte do filme é mesmo o elenco. Juliane Moore como a melhor amiga que dá em cima do amigo gay só para não ficar sozinha está impecável e linda. Sua frase "Eu tenho muitos amigos mas nenhum deles precisa de mim" resume o personagem e a vida de muita gente que eu conheço. Filme simplesmente IMPERDÍVEL
Saímos para tomar outro café desta vez com croissants. E pra relaxar o divertidíssimo

20:30 - Soul Kitchen - 2009 Alemanha - Fatih Akin
Uma comédia Alemã, já pensou? Um feel good movie com um diretor alemão de ascendência turca. Pense numa trilha sonora dançante. O protagonista é o hilário grego Zinos que tem um restaurante falido tipo PF sujinho, na periferia de Hamburgo, uma desgraça. Resolve então desistir do tão amado quanto endividado estabelecimento para ir atrás de sua namorada em Xangai. A partir daí tudo parece conspirar para o Soul Kitchen decolar e virar o restaurante da moda. Muito bom.
Fomos para a casa lindas leves e soltas. Para mim pelo menos, sinônimo de sabadão perfeito.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

terça-feira, 23 de março de 2010

Cinema da Fundaj - A Fita Branca e as Coberturas de Mascaro

15 dias sem dirigir, braço imobilizado.
Minha amiga Aninha levou-me ao médico . Era ao lado do cinema da Fundação. Fomos atendidas em tempo record. Nada melhor do que um bom Castigliani e CINEMA UHUHU. Sinto um enorme prazer quando estou no cinema da Fundação.
Assistimos A FITA BRANCA, 2009, que deveria ter recebido o oscar de melhor filme estrangeiro.
Muito bom. Alemão, passa-se numa aldeia um pouco antes da primeira guerra mundial.
Acontecimentos estranhos envolvendo sempre as crianças do pequeno lugarejo. As crianças recebiam uma educação rígida demais, repressiva e cheia de castigos físicos e falsa moral.
Essa seria a geração que estaria adulta na época do terceiro Reich. A fotografia é escura e intrigante. Bom. Muito bom.
Quanto ao documentário pernambucano de Gabriel Mascaro (que deu uma de Michael Moore usando sua câmera apontada como uma arma), Um Lugar ao Sol, 2009, fiquei entre surpresa, pasma mesmo, e pensativa. O filme provoca. De todos os lados. Ele admoesta. Incomoda. Dos 125 proprietários de coberturas procurados pela produção, apenas 9 concordaram em participar do filme, dando depoimentos sobre como é morar "por cima". 5 deles são pessoas conhecidas aqui no Recife. Depois tem um empresário de São Paulo e 3 do Rio de Janeiro. Poucos tinham um discurso coerente (como a imigrante francesa do Rio) e outros tinham um discurso chocante (como a carioca que via uma incrível beleza nos tiroteios que presenciava todas as noites nos morros, pois pareciam fogos de artifício).
Houve muito riso na platéia o que me preocupou.
Interessante.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

BOX GUARARAPES



O LOBISOMEN.
BENÍCIO DEL TORO E ANTHONY HOPKINS JÁ VALEM O INGRESSO.
A HISTORINHA É BOAZINHA. AS TRANSFORMAÇÕES SÃO INTERESSANTES.
NÃO SOU MUITO DE CARNIFICINAS E O QUE EU MAIS GOSTEI NO FILME
FOI A AMBIENTAÇÃO NA INGLATERRA VITORIANA, COMO NO CLÁSSICO
ORIGINAL DE 1941.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

As Palavras Andantes - Eduardo Galeano


Com Gravuras de J.Borges. Aí Bezerros cidade amada!


"Ninguém conseguirá matar aquele tempo, ninguém vai conseguir jamais: nem nós. Digo: enquanto você existir, onde quer que esteja, ou enquanto eu existir.

"Diz o almanaque que aquele tempo, aquele pequeno tempo, já não existe; mas nesta noite meu corpo nu está transpirando você."
"Desde que a viu, a vê. E não vê mais nada."

" E assim foi até que não foi mais."

" Houve uma vez que foi a primeira vez, e então o bicho humano ergueu-se e suas quatro patas se tranformaram em dois braços e duas pernas, e graças às pernas os braços ficaram livres e puderam fazer casa melhor que a copa da árvore ou a caverna do caminho. E tendo-se erguido, a mulher e o homem descobriram que é possível fazer amor cara a cara e boca a boca, e conheceram a alegria de olhar nos olhos durante o abraço de seus braços e o nó de suas pernas."


" [...]
- Mas não foi bem assim.
- E que é que diz que não foi?
- Deus.
- Ah.
- O Grão Cão.
- E você viu ele?
- Quem vê fica cego. Eu senti. Estava de costas e senti aquele sagrado todo. [...]"


"A fome come o medo. O medo do silêncio atordoa as ruas.
O medo ameaça:
Se você amar, vai pegar aids.
Se fumar, vai ter câncer.
Se respirar, vai se contaminar.
Se beber, vai ter acidentes.
Se comer, vai ter colesterol.
Se falar, vai perder o emprego.
Se caminhar, vai ter violência.
Se pensar, vai ter angústia.
Se duvidar, vai ter loucura.
Se sentir, vai ter solidão."



"A Igreja diz: o corpo é uma culpa.
A ciência diz: o corpo é uma máquina.
A publicidade diz: o corpo é um negócio.
O corpo diz: Eu sou uma festa."


" A mãe abnegada exerce a ditadura da servidão.
O amigo solícito exerce a ditadura do favor.
A caridade exerce a ditadura da dívida.
A liberdade de mercado permite que você aceite os preços
que lhe são impostos.
A liberdade de opinião permite que você escute aqueles que
opinam em seu nome.
A liberdade de eleição permite que você escolha o molho
com o qual será devorado."

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

La Vie En Close

O Que Passou, Passou?

Antigamente, se morria.
1907, digamos, aquilo sim
é que era morrer.
Morria gente todo dia,
e morria com muito prazer,
já que todo mundo sabia
que o Juízo, afinal, viria,
e todo mundo ia renascer.
Morria-se praticamente de tudo,
de doença, de parto, de tosse.
E ainda se morria de amor,
como se amar morte fosse.
Pra morrer, bastava um susto,
um lenço no vento, um suspiro e pronto,
lá se ia o nosso defunto
para a terra dos pés juntos.
Dia de anos, casamento, batizado,
morrer era um tipo de festa,
uma das coisas da vida,
como ser ou não ser convidado.
O escândalo era de praxe.
Mas os danos eram pequenos.
Descansou. Partiu. Deus o tenha.
Sempre alguém tinha uma frase
que deixava aquilo mais ou menos.
Tinha coisas que matavam na certa.
Pepino com leite, vento encanado,
praga de velha e amor mal-curado.
Tinha coisas que tem que morrer,
tinha coisas que tem que matar.
a honra, a terra e o sangue
mandou muita gente praquele lugar.
Que mais podia um velho fazer,
nos idos de 1916,
a não ser pegar pneumonia,
deixar tudo para os filhos
e virar fotografia?
Ninguém vivia pra sempre.
Afinal, a vida é um upa.
Não deu pra ir mais além.
Mas ninguém tem culpa.
Quem mandou não ser devoto
de Santo Inácio de Acapulco,
Menino Jesus de Praga?
O diabo anda solto.
Aqui se faz, aqui se paga.
Almoçou e fez a barba,
tomou banho e foi no vento.
Não tem o que reclamar.
Agora, vamos ao testamento.
Hoje, a morte está difícil.
Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
Agora, a morte tem limites.
E, em caso de necessidade,
a ciência da eternidade,
inventou a criônica.
Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.

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Lápide 1
epitáfio para o corpo

Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito,
são suas obras completas.

Lápide 2
epitáfio para a alma

Aqui jaz um artista
mestre em desastres
viver
com a intensidade da arte
levou-o ao infarte
deus tenha pena
dos seus disfarces.

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Insular

mil milhas de treva
cercada de mágua
por todos os lados

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esta vida é uma viagem
pena eu estar
só de passagem

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a noite - enorme
tudo dorme
menos teu nome

ISSO TUDO É LEMINSKI

Distraídos Venceremos

Volta em Aberto

Ambígua volta
em torno da ambígua ida,
quantas ambiguidades
se pode cometer na vida?
Quem parte leva um jeito
de quem traz a alma torta.
Quem bate mais na porta?
Quem parte ou quem torna?

Leminski

o amor, esse sufoco
agora há pouco era muito,
agora, apenas um sopro

ah, troço de louco,
corações trocando rosas,
e socos

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podem ficar com a realidade
esse baixo astral
em que tudo entra pelo cano

eu quero viver de verdade
eu fico com o cinema americano

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eu ontem tive a impressão
que deus quis falar comigo
não lhe dei ouvidos

quem sou eu para falar com deus?
ele que cuide dos seus assuntos
eu cuido dos meus

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Parada Cardíaca

Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure
vem de dentro

Vem da zona escura
donde vem o que sinto
sinto muito
sentir é muito lento

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Razão de Ser

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
e as estrelas lá no céu
lembram letras de papel,
quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

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Incenso Fosse Música

isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

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abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri
antigamente eu era eterno


TUDO ISSO É LEMINSKI

Caprichos e Relaxos II

não fosse isso
e era menos
não fosse tanto
e era quase

Leminski

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Falando sobre mim: exercício de escrita



1. Quando eu tinha 15 anos achava que ainda ia crescer 15 cm. Isso nunca aconteceu.
2. Quando eu tinha 20 anos minha filha Tainá nasceu e eu nasci também nessa hora.
3. Eu e Tainá crescemos juntas como irmãs. Hoje ela é minha mãe.
4. Quando eu tinha 30 anos meu filho Edgard nasceu e foi como se eu fosse mãe pela primeira vez.
5. Cada filho meu tem um pai que corresponde a um ex-marido se é que você me entende.
6. Acredito no par. A vida só tem graça em dupla.
7. Nunca fui ao cinema sozinha.
8. Tive uma crise de choro quando conheci Veneza porque eu queria que meu pai estivesse ali comigo.
9. Quero morrer em Veneza.
10. Mas antes preciso passar alguns meses na costa amalfitana.
11. Amo os dias de chuva a ponto de ficar eufórica.
12. Fiz 5 anos de análise e ainda não recebi alta.
13. Desconfio que meu diagnóstico já mudou de depressiva para alcoolista passando por síndrome de pânico.
14. Há dias em que estou absurdamente feliz para no dia seguinte achar que a vida é uma espelunca de quinta categoria. Talvez o transtorno bipolar deva ser cogitado.
15. Ouro Preto não. Mas adoraria morar uns tempos em Tiradentes.
16. Frederico é o grande amor da minha vida. Espero que ele nunca vire meu ex-marido.
17. Adoro blues principalmente Steve RayVaughan, mas não curto aquele tipo de jazz que passa uma hora viajando na mesma maionese. Miles Davis é o máximo.
18. Tenho uma incrível facilidade para dizer não. De maneira indolor inclusive.
20. Ler é o meu maior vício.
21. Depois vem vinho tinto e prosecco. Só curto drogas lícitas.
22. Se eu tivesse certeza que o mundo iria acabar em 2012, passaria a tomar champagne no café da manhã.
23. Eu não nasci para trabalho. Melhor: gostaria de ser paga para ler.
24. Queria ter o dom de escrever. Como Saramago ou Mario Vargas Llosa.
25. Ganho muito tempo dormindo e consigo ser sedentária sem peso na consciência.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Caprichos e Relaxos

um dia desses quero ser
um grande poeta inglês
do século passado
dizer
ó céu ó mar ó clã ó destino
lutar na índia em 1866
e sumir num naufrágio clandestino

Leminski

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Férias sinônimo de muitos livros, filmes amigos e PRAIA!








Fui passar uns dias no litoral sul de Pernambuco, em Xaréu, uma prainha despretensiosa, e por isso mesmo deliciosa, assim como as companhias! Lá não tinha wireless em compensação tinha topless uhuhuhuhu
Nos deliciamos com peixes e crustáceos à vontade. Fizemos artesanato, pátina, pintamos vidrinhos coloridos para encher de velas, e preguiçamos nas redes.
Joguei frescobol todos os dias rememorando os áureos tempos do Acaiaca.
A casa, cercada de uma reserva de mata atlântica, é um refúgio perfeito para descanso. Muitos pássaros cantando e bandos de saguis.
Mas um dia, depois de uma chuva, recebemos a inusitada visita de uma aranha caranguejeira peluda tamanho gigante! Gritos, corre-corre e a pobrecita correu assustada.....Ou seja, tivemos direito à todos os acontecimentos do tipo férias na casa da praia, como por exemplo o carro que atola no caminho da padaria....recordações engraçadas para depois....
Que delícia, voltamos todos renovados. Mas ainda tem muita coisa pra curtir antes das férias acabarem!

domingo, 10 de janeiro de 2010

Quando a literatura me traduz

O pernambucano Osman Lins no conto Noivado

- Sua mãe procurava dar a impressão de mártir. De uma santa. Nunca vi alguém mais preocupado, neste mundo, em ter uma aparência angélica. [...] Nunca sabia nada, a ingênua. Tinha sempre a cabeça meio pendida, como a das imagens baratas, e as mãos cruzadas no regaço. Ignorava os escândalos mais notórios. Para fingir que não se ocupava dos assuntos alheios e ouvir mais uma vez, com novos pormenores, o que já sabia. Sempre admirando-se.
- Apesar dos pesares, era boa mulher e carinhosa comigo. [...] Insistia para que eu casasse. Contanto que ficasse em sua companhia.
- Sabia que mulher nunhuma aguentaria isto. Sua maneira oblíqua de atormentar era invencível.
- Não é piedoso falar assim dos mortos.
- Acho que, quando não se tem substância tudo é pretexto para negações.

Mamma Mia o filme!




Que delícia! O musical da Broadway virou filme (2008) com a Meryl Streep e aquele lindão do Pierce Brosnan (007).

Particularmente nunca gostei de musical (Moulin Rouge com a Nicole Kidman, 2001, UÓ) acho enfadonho etc mas esse está quase - veja bem eu disse quase - na categoria de Hair, ou seja, o tipo de musical que empolga porque as músicas são o máximo e os personagens idem.

A fotografia é um deslumbre, a história se passa na ilha grega de Kalokairi.

A trilha sonora inteirinha do ABBA dá vontade de sair dançando pela sala uhuhuhuhuhu! Pelo menos pro meu povo, da minha idade hehehe

Eu sou a Donna e Tainá é Sophie....filha única linda prestes a se casar........

Adorei vou ver mais vezes. Recomendo.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Oh Brave new world !



Estou relendo Admirável Mundo Novo após 20 anos.
O livro é simplesmente fantástico.
Não me lembrava de muita coisa, claro.
Huxley escreveu o livro em 1931 e jamais poderia imaginar o quanto sua crítica à sociedade moderna seria cada vez mais atual durante todo esse tempo.

Estamos no ano 632 D.F. (depois de Ford)
Numa das passagens impressionantes do livro, o Sr. Selvagem pergunta à Sua Fordeza porque os livros de Shakespeare são proibidos. A resposta é impressionante:

- Ninguém entenderia Otelo.

- Mas, e se fosse algo novo com Otelo e que eles possam compreender?

- Se parecesse realmente com Otelo, ninguém poderia compreendê-lo, por mais novo que fosse. E, se fosse novo, não poderia de maneira alguma ser parecido com Otelo.

- Por que não?

- Porque o nosso mundo não é o mesmo mundo de Otelo. Não se pode fazer um calhambeque sem aço, e não se pode fazer uma tragédia sem instabilidade social. O mundo agora é estável. As pessoas são felizes, têm o que desejam, e nunca desejam o que não podem ter. Sentem-se bem, estão em segurança; nunca adoecem; não tem medo da morte; vivem na ditosa ignorância da paixão e da velhice; não se acham sobrecarregadas de pais e mães; não têm esposas, nem filhos, nem amantes, por quem possam sofrer emoções violentas; são condicionadas de tal modo que praticamente não podem deixar de se portar como devem. E, se por acaso, alguma coisa andar mal, há o soma.

- Tudo isso me parece absolutamente horrível.

- Sem dúvida. A felicidade real sempre parece bastante sórdida em comparação com as supercompensações do sofrimento. [...] E o fato de estar satisfeito nada tem da fascinação de uma boa luta contra a desgraça, ou de uma derrota total sob os golpes da paixão ou da dúvida. A felicidade nunca é grandiosa."