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quinta-feira, 17 de julho de 2014

Drummond e a Palestina

Os Ombros Suportam o Mundo

Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

101 Dias em Bagdá - Asne Seierstad

Li pouco nestas férias. Não falo de revistas e jornais, mas livros.

Visitas, praia, passeios, e o resultado: li apenas dois livros.

O lado bom: foram dois livros S E N S A C I O N A I S !
101 Dias em Bagdá. A autora é uma jornalista correspondente de guerra. A mesma do best seller O Livreiro de Cabul. Esteve no Kosovo, Chechênia e Afeganistão. Estava no Iraque antes da chegada dos americanos. Ela narra o antes, o durante e o depois. Relata o que viu e viveu em Bagdá entre os meses de janeiro e abril de 2003. Faz uma crônica do cotidiano na Guerra do Iraque, mostrando como vivem os iraquianos, como reagem durante os bombardeios, suas opiniões sobre o regime deposto de Saddam Hussein, as expectativas em relação ao futuro e a censura à imprensa estrangeira. Trabalhando para oito órgãos de imprensa de oito países diferentes, todos o dias ela fazia transmissões ao vivo para televisões da Noruega, Holanda e Alemanha. Sempre em busca de histórias menos óbvias, procurou expor o universo do conflito além das manchetes. Mesmo proibida pelo ministério da informação, saia às ruas entrevistando pessoas, descobrindo o que acontece diante de situações-limite, quando as explosões interrompem o fornecimento de eletricidade, água e outros serviços essenciais. A autora traz à vida um elenco de personagens inesquecíveis, como Aliya, guia e intérprete que se tornou amiga. Descobriu personagens valiosos como o melancólico dono de uma livraria que, por conta da primeira invasão americana, em 1991, não dispunha de nada novo desde aquela data, frustrando fregueses fiéis como um fã de Jean Paul Sartre ou o rapaz disposto a descobrir se realmente era possível clonar humanos, como ouvira dizer. Asne contou também com a cumplicidade dos iraquianos, desde a dupla de motoristas Abbas e Amir até Kadim, funcionário do Ministério da Informação encarregado de controlar o período de permanência dos jornalistas no país.
Maurício de Nassau e o Brasil Holandes. Correspondência com os Estados Gerais.
Décimo segundo trabalho do já consagrado historiador pernambucano Fernando da Cuz Gouvêa, o livro nasceu de um artigo publicado em 1979 no nº 51 da Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano. (Aliás essa fabulosa revista voltará a ser publicada pela CEPE). Com uma pesquisa profunda e meticulosa ele não apenas apresenta a correspondência do conde-governador do Brasil Holandês com os diretores da Companhia das índias Ocidentais na Holanda´, como analisa o contexto da chegada, os motivos da partida e os sete anos de permanência na Mauritsstad. É apaixonante ler sobre aquele nobre alemão de 33 anos de idade com propósitos tão definidos e decisões militares inteligentes. O livro descreve a chegada do conde, com sua comitiva de artistas, intelectuais e cientistas. Trouxe para o Brasil propósitos de civilização, não se conformando com a exploração pura e simples. As cartas se sucedem e ficamos sabendo pormenores. Como o aviso que Nassau deu aos holandeses do perigo iminente. Portugueses e nativos se uniam preparando a sublevação. Bom, muito bom!

terça-feira, 18 de março de 2008

Colação de grau - Universidade Federal de Pernambuco


Aqui filhinho segura o espelho para o make-up da mamãe: preparação para

mais um grande momento da famíla Soares de Araújo.

Nos bastidores: deu nervoso, todos pra lanchonete do teatro.....

Edgard, meu padrinho, 2 dias após tirar o gesso, mas ainda com a bota ortopédica, se desequilibra, tremendo na base. Mas ainda dá pra ver Ariano Suassuna(avô de João da nossa turma) de camisa azul clarinha, exatamente atrás do zagueiro contundido.

















segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Acabo de ler a biografia de D.PedroII de José Murilo de Carvalho


"No retrato apaixonado traçado pelo historiador, o homem que governou o Brasil por meio século(superado em tempo de governo apenas pela Rainha Vitória) com "os valores de um republicano, com a minúcia de um burocrata e com a paixão de um patriota" deixou um exemplo de senso de dever, tolerância, liberalidade e quase inacreditável respeito pela liberdade de imprensa.
De todas essas características, a mais surpreendente é a fé republicana. Como poderia defender um sistema de governo que implicava sua própria extinção? Em defesa da tese republicana, pesam escritos do próprio Pedro II. "Nasci para consagrar-me às letras e às ciências, e, a ocupar posição política, preferiria a de presidente da República ou ministro à de imperador", escreveu ele numa espécie de auto-retrato feito em 1861 no diário habitualmente dedicado a registrar fatos mais rotineiros. Outros trechos reveladores:
• "Jurei a Constituição; mas ainda que não a jurasse seria ela para mim uma segunda religião".
• "A nossa principal necessidade política é a liberdade de eleição; sem esta e a de imprensa não há sistema constitucional na realidade, e o ministério que transgride ou consente na transgressão desse princípio é o maior inimigo do estado e da monarquia".
• "Leio constantemente todos os periódicos da corte e das províncias. (...) A tribuna e a imprensa são os melhores informantes do monarca".
Também se atribui a Pedro ter dito: "Eu sou republicano. Todos o sabem. Se fosse egoísta, proclamava a República para ter as glórias de Washington". Está aí uma das explicações para a sua "estranha simpatia" republicana, segundo José Murilo de Carvalho: na visão dele, a monarquia era necessária como uma "fase de preparação" do país para um futuro mais evoluído.
O imperador tinha opiniões honrosas sobre praticamente todos os assuntos importantes. Era a favor de eleições livres e ardoroso defensor da educação como instrumento democrático."
fonte: Revista Veja edição 2034 - 14/11/2007
Particularmente gosto de todos os livros de José Murilo. Esta biografia está impecável, muito bem documentada, as fontes as melhores. E... me apaixonei ainda mais por D. Pedro II. Um monarca respeitado no mundo todo, que nos enche de orgulho. José Murilo escreve muito bem, seus livros não são indicados apenas para historiadores, muito pelo contrário, prosa agradável, lê-se rápido e deixa saudades. Recomendo também de José Murilo: Bestializados.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

A História como PAIXÃO


Quando estou com meus alunos, meu objetivo é socializar conhecimentos historicamente adquiridos. Afinal, tais conhecimentos não são exclusividade de uns poucos privilegiados. Eles também pertencem àquela parcela da sociedade, que é majoritária, mas tem tudo pouquinho, inclusive oportunidades. Então, diante deles, tento superar determinadas posturas educativas que corroboram com uma formação humana limitada. Quero interferir intencionalmente em relações educacionais alienadas e alienadoras.

Quero construir uma prática pedagógica auto-consciente, articulada com projetos educacionais socialmente críticos, democráticos e cidadãos, mediados pela competência técnica.

Neste ofício, de professor de História, trabalho o conhecimento, de forma que o aluno se sinta na condição de sujeito social. Minhas explicações miram na direção da compreensão do mundo.

Além disso, é preciso que o aluno tome conhecimento de seus direitos. Faço isso trabalhando valores, hábitos, atitudes e comportamentos que estimulem e possibilitem o pleno exercício da cidadania.

Na prática, isso significa proporcionar orientações básicas para que o aluno potencialize ou desenvolva: 1 - a defesa dos direitos humanos, 2 - o sentimento de igualdade entre homens e mulheres, 3 - a solidariedade, 4 - o respeito ao próximo, 5 - a integração dos deficientes, 6 - o respeito ao meio ambiente, 7 - tolerância em relação às minorias, 8 - a rejeição à toda e qualquer forma de discriminação, 9 - abertura em relação à outras culturas, 10- -participação democrática na vida política. Parece muito? É nada, é não. É o mínimo. Os próprios conteúdos nos proporcionam ricas oportunidades de interferir, fazer comparações. A palavra como instrumento, na construção da cidadania.

Eu acredito no poder transformador da palavra


Todos aqueles que ainda têm a ousadia de falar e escrever
acreditam, ainda que de forma tênue, que o seu falar faz uma
diferença. Isso é de crucial importância para o educador, e dessa
crença depende o seu sono e o seu acordar. Porque, com que
instrumentos trabalha o educador? Com a palavra. O educador fala.
Mesmo quando o seu trabalho inclui as mãos, todos os seus gestos
são acompanhados de palavras. São as palavras que orientam as
mãos e os olhos.


Rubem Alves. Conversas com quem gosta de ensinar. Campinas
SP: Papirus, 2000, p.35. Adaptado.